O Que É Autismo? Tipos, Diagnóstico e Pesquisas Atuais
1. Introdução
O dia 2 de abril marca o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007. A data tem como objetivo ampliar o conhecimento da sociedade sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), combater o preconceito e estimular atitudes de respeito, inclusão e empatia.
Mesmo com avanços no diagnóstico e na visibilidade do autismo nos últimos anos, ainda é comum que muitas pessoas desconheçam o que realmente significa estar no espectro. Em 2025, isso continua sendo um tema fundamental, não só para as famílias diretamente envolvidas, mas para toda a sociedade que precisa aprender a conviver com as diferenças.
Este artigo propõe uma abordagem direta, clara e sem estigmas sobre o que é o autismo, como ele se manifesta em diferentes perfis e o que as pesquisas mais recentes revelam sobre o tema. Mais do que informações técnicas, o objetivo aqui é promover compreensão real — e isso começa por olhar para o autismo com menos rótulos e mais humanidade.
2. O Que é o Transtorno do Espectro Autista (TEA)?
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a forma como uma pessoa se comunica, interage socialmente e percebe o mundo ao seu redor. Ele não é uma doença, mas uma forma diferente de funcionamento neurológico, com origens genéticas e biológicas, que acompanha o indivíduo ao longo da vida.
O termo “espectro” é utilizado porque o autismo se manifesta de maneiras diversas, com intensidades e características que variam de pessoa para pessoa. Algumas pessoas autistas podem ter dificuldades mais evidentes, enquanto outras desenvolvem autonomia e habilidades avançadas em áreas específicas.
Entre as características mais comuns do TEA, estão:
- Dificuldades na comunicação verbal e não verbal;
- Desafios na interação social e no reconhecimento de sinais sociais sutis;
- Comportamentos repetitivos e rotinas rígidas;
- Hipersensibilidade a sons, luzes, cheiros ou texturas;
- Interesses restritos ou intensamente focados em determinados temas.
É importante lembrar que essas características não estão presentes da mesma forma em todas as pessoas no espectro — e isso é justamente o que torna cada caso único.
3. Autismo é um Espectro: O Que Isso Significa?
Quando dizemos que o autismo é um espectro, estamos reconhecendo que ele não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas. Existem diferentes combinações de características, diferentes intensidades e diferentes formas de interação com o mundo. Não há um “tipo único” de autismo.
Para facilitar o entendimento e a oferta de apoio adequado, é comum utilizar a ideia de níveis de suporte:
- Nível 1 (suporte leve): a pessoa consegue se comunicar e interagir, mas pode enfrentar dificuldades em situações sociais mais complexas. Muitas vezes, vive de forma independente.
- Nível 2 (suporte moderado): há necessidade de apoio frequente para lidar com comunicação, rotina e atividades sociais. Os desafios são mais visíveis no dia a dia.
- Nível 3 (suporte intenso): a pessoa necessita de suporte contínuo e especializado, com dificuldades significativas na fala, no comportamento e na adaptação ao ambiente.
Esses níveis não são rótulos fixos. Eles servem apenas como uma referência para compreender o grau de autonomia e as necessidades específicas de cada indivíduo. Mais importante do que os níveis é lembrar que todas as pessoas autistas têm potencial, sentimentos e formas próprias de ver e viver o mundo.
Por isso, comparar pessoas dentro do espectro é um erro comum — e injusto. O respeito começa ao reconhecer a singularidade de cada trajetória.
4. Tipos ou Perfis Dentro do Espectro
Popularmente, muita gente fala em “tipos de autismo”, mas o termo mais adequado é perfis funcionais ou níveis de suporte. Isso porque não há divisões fixas dentro do espectro, mas sim formas diferentes de manifestação e necessidade de apoio.
Alguns dos perfis mais comuns incluem:
- Pessoas verbais: conseguem se expressar por meio da fala, com maior ou menor fluência. Muitas vezes são autistas com suporte leve (nível 1), e podem ter sua condição invisibilizada por conta disso.
- Pessoas não verbais: não utilizam a fala como principal forma de comunicação. Isso não significa ausência de inteligência ou compreensão. Muitas dessas pessoas se comunicam por outras formas, como gestos, escrita ou tecnologia assistiva.
- Autismo com altas habilidades: também conhecido como perfil de autismo com funcionamento elevado (antigamente chamado de “Síndrome de Asperger”). A pessoa pode ter linguagem fluente, pensamento lógico e interesse profundo por temas específicos, mas ainda assim enfrenta desafios sociais e sensoriais.
- Autismo com deficiência intelectual associada: envolve, além do autismo, limitações cognitivas que exigem suporte contínuo em múltiplas áreas da vida cotidiana.
É essencial lembrar que nenhum desses perfis é “melhor” ou “pior”. Todos são igualmente válidos, com suas dificuldades e potências. A sociedade só avança quando aprende a acolher cada um conforme suas necessidades.
5. Diferenças Entre Homens e Mulheres no Diagnóstico
Por muitos anos, acreditou-se que o autismo fosse significativamente mais comum em meninos. De fato, as estimativas tradicionais apontavam que o TEA era até quatro vezes mais frequente no sexo masculino. No entanto, estudos recentes têm mostrado que essa diferença pode não ser tão grande quanto se imaginava — o que existe, na verdade, é um forte subdiagnóstico em meninas e mulheres.
Uma das principais razões para isso é o chamado “mascaramento social”, um fenômeno em que meninas e mulheres autistas aprendem, consciente ou inconscientemente, a imitar comportamentos sociais típicos para se adaptar e evitar exclusão. Elas observam, copiam gestos, expressões e formas de interação, escondendo características do espectro. Isso faz com que muitas passem despercebidas em avaliações clínicas tradicionais.
Além disso, os traços autistas em meninas tendem a se manifestar de forma diferente dos meninos. Enquanto eles podem demonstrar interesses restritos em temas como números ou máquinas, meninas costumam focar em assuntos mais socialmente aceitos, como animais, leitura ou organização. Essa diferença de perfil pode confundir familiares e profissionais, levando a diagnósticos tardios — ou até inexistentes.
Segundo uma reportagem recente do New York Post (abril de 2025), estima-se que cerca de 80% das meninas autistas permaneçam sem diagnóstico até a vida adulta. Esse atraso pode ter impactos profundos na saúde mental e emocional dessas mulheres, que muitas vezes crescem sentindo-se “diferentes” ou “erradas”, sem saber o motivo.
Por isso, é essencial que profissionais de saúde estejam atentos a essas nuances, adaptando os critérios diagnósticos e a escuta clínica às particularidades de gênero. Diagnosticar corretamente é o primeiro passo para oferecer apoio e respeito.
6. Pesquisas Recentes (2023–2025): O Que a Ciência Está Descobrindo?
Nos últimos anos, o avanço das pesquisas sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem revelado informações valiosas sobre suas causas, manifestações e possíveis formas de apoio. Abaixo, destacamos algumas das descobertas mais relevantes entre 2023 e 2025:
Ligação genética com o gene DDX53 (dez/2024)
Um estudo internacional publicado em dezembro de 2024 identificou o gene DDX53 como um importante marcador genético associado ao autismo. Esse gene é altamente expresso no cérebro e nos testículos, o que pode ajudar a explicar por que o autismo é mais prevalente em meninos. A descoberta reforça a base biológica do TEA e pode contribuir para diagnósticos mais precisos no futuro.
Diagnóstico precoce melhora os resultados (2024)
Pesquisas publicadas ao longo de 2024 reforçaram que crianças diagnosticadas com autismo antes dos 2 anos e meio têm até três vezes mais chances de apresentar melhorias significativas em suas habilidades sociais e de comunicação. Isso mostra como a intervenção precoce pode fazer uma grande diferença no desenvolvimento das crianças no espectro.
Poluição do ar como fator de risco (fev/2024)
Em fevereiro de 2024, um estudo publicado no American Journal of Psychiatry associou a exposição ao óxido nítrico (NO₂) — um gás poluente liberado pela queima de combustíveis fósseis — a um aumento na incidência de TEA em crianças. A pesquisa ressalta a importância da qualidade ambiental como possível fator de influência no desenvolvimento neurológico.
Leucovorina e crianças não verbais (jan/2024)
Outro avanço promissor veio com o uso da leucovorina, um medicamento originalmente utilizado em tratamentos oncológicos. Estudos clínicos em 2024 mostraram que ele pode ajudar crianças autistas não verbais a desenvolverem a fala, especialmente aquelas com deficiência no metabolismo do folato. Embora ainda em fase de pesquisa, a descoberta abre portas para novas abordagens terapêuticas.
Subdiagnóstico em meninas (abr/2025)
Conforme abordado anteriormente, estudos recentes mostraram que até 80% das meninas autistas podem não ser diagnosticadas até a vida adulta. O fenômeno do mascaramento social e as diferenças nas manifestações clínicas entre os gêneros têm desafiado os métodos tradicionais de avaliação. Esse dado reforça a necessidade de abordagens mais sensíveis e inclusivas nos processos diagnósticos.
Essas pesquisas mostram que o entendimento do autismo está em constante evolução. Avançar na ciência é essencial para quebrar estigmas, melhorar diagnósticos e oferecer caminhos mais humanos e eficazes de convivência e cuidado.
7. Convivência e Inclusão: Como Apoiar Pessoas Autistas?
Conviver com pessoas autistas não exige fórmulas mágicas, mas sim empatia, escuta ativa e disposição para compreender o outro. Cada pessoa no espectro tem suas preferências, sensibilidades e formas próprias de se comunicar. Por isso, o primeiro passo é sempre respeitar o tempo, o espaço e a individualidade de cada um.
O que fazer no dia a dia:
- Praticar comunicação clara e objetiva, evitando linguagem ambígua ou indireta;
- Respeitar limites sensoriais (sons altos, toques inesperados, cheiros fortes podem ser incômodos);
- Ser paciente com o ritmo da pessoa — nem toda resposta virá de imediato, e tudo bem;
- Valorizar interesses específicos, mesmo que pareçam “diferentes”;
- Incluir ativamente, sem forçar interações — oferecer o convite, mas respeitar a escolha.
O que evitar:
- Corrigir ou podar comportamentos que não sejam prejudiciais, apenas por “estranheza”;
- Falar sobre a pessoa na sua frente como se ela não estivesse presente;
- Tratar o autismo como uma “tragédia” ou uma “pena” — isso reforça estigmas;
- Pressionar para que ela “se encaixe” em padrões sociais impostos;
- Generalizar: cada pessoa no espectro é única.
A chave para uma convivência respeitosa é compreender que não existe um jeito certo de ser. O conceito de neurodiversidade nos convida a enxergar o autismo não como um defeito, mas como uma variação legítima do funcionamento humano. Todos nós temos formas diferentes de pensar, sentir e existir — e isso é algo que deve ser reconhecido e valorizado.
8. Conclusão: O Que Realmente Significa “Conscientizar”?
Mais do que uma data no calendário, o Dia Mundial da Conscientização do Autismo é um convite à reflexão. Conscientizar não é “celebrar o autismo” como se fosse algo separado das pessoas, mas sim reconhecer, compreender e respeitar quem está no espectro em toda a sua complexidade humana.
Isso significa quebrar mitos, abandonar estereótipos, ouvir as próprias pessoas autistas e buscar fontes de conhecimento confiáveis. É entender que o autismo não precisa ser “curado” ou “consertado”, mas sim acolhido — com suporte, inclusão e dignidade.
Uma sociedade verdadeiramente inclusiva começa pela informação de qualidade. Quando aprendemos mais, julgamos menos. E quando respeitamos mais, vivemos melhor — todos nós, com nossas diferenças.
Que este 2 de abril não seja apenas um símbolo, mas um passo real em direção à empatia e à convivência consciente.
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