A Língua Muda — E Isso Não É o Fim do Mundo
Em conversas informais, nas redes sociais e até em debates educacionais, é comum ouvir preocupações sobre o destino da língua portuguesa. Algumas pessoas se incomodam com abreviações como “vc” e “blz”, ou com a popularização de expressões como “top”, “cringe” e “dar ruim”. Para muitos, isso é sinal de que a língua está “se perdendo”, “sendo corrompida” ou “morrendo”. Mas será mesmo?
O que essas reações revelam, na verdade, é um estranhamento com a mudança linguística — um processo tão natural quanto inevitável. A língua não é uma estrutura fixa. Ela vive, respira e muda conforme as necessidades e o comportamento das pessoas que a usam.
Neste artigo, vamos entender por que a língua muda, como essas mudanças já ocorreram várias vezes no passado, e por que isso não representa decadência, mas vitalidade. Com exemplos concretos e apoio de estudos linguísticos, vamos mostrar que o português não está morrendo — ele está simplesmente fazendo o que sempre fez: se transformar.
1. A tradição das críticas linguísticas ao longo da história
A ideia de que a língua está “piorando” não é novidade. Ela acompanha praticamente todas as gerações desde que se começou a registrar o uso da língua. A cada mudança no modo de falar, escrever ou construir frases, surgem vozes que lamentam o “fim” do idioma como se o passado representasse uma era de pureza linguística.
No século XIX, por exemplo, já havia críticas ao uso de galicismos — palavras de origem francesa que se tornaram comuns entre as elites urbanas. Em sua Gramática Expositiva, publicada em 1878, o filólogo português Gonçalves Viana alertava para o "excesso de galicismos" no português escrito e falado em Portugal, como se isso representasse um risco ao idioma.
No Brasil, autores como Rui Barbosa e Sílvio Romero demonstravam preocupação com o que consideravam “corrupção da língua”, seja por influência estrangeira, pela linguagem popular ou pelas inovações trazidas pelos próprios escritores modernos. Mas curiosamente, muitos desses termos que geravam preocupação na época hoje são aceitos sem questionamento.
Esse tipo de crítica acompanha a própria história da língua. O linguista americano John McWhorter, em The Power of Babel (2001), aponta que a sensação de decadência linguística é recorrente em várias culturas e costuma surgir sempre que há mudanças rápidas ou visíveis no uso cotidiano. No português, isso se repete tanto na oralidade quanto na escrita, alimentando o mito de que a língua está sendo “destruída”.
2. Mudanças que já causaram incômodo (e hoje ninguém estranha)
Uma das formas mais eficazes de entender a vitalidade da língua é observar mudanças que, no passado, causaram resistência ou foram consideradas “erradas” — mas que hoje estão plenamente integradas ao uso cotidiano e até à norma culta.
Um exemplo clássico é a palavra “você”. Originalmente, a forma usada para o tratamento formal era “vossa mercê”, expressão de respeito. Com o tempo, essa expressão foi sendo reduzida para “vosmecê”, depois “vosmicê”, até chegar em “você” — e ainda mais recentemente, “cê”. Essa mudança foi vista por muito tempo como indício de empobrecimento da língua, mas hoje “você” é parte central do português brasileiro.
Outro caso é a expressão “a gente”, usada com valor de primeira pessoa do plural (“nós”). Muita gente já considerou isso um erro grave. Mas hoje, mesmo em situações formais, “a gente” é perfeitamente compreendida e aceita, especialmente na linguagem oral. A norma culta reconhece o uso, desde que haja concordância no singular.
Também houve resistência à simplificação de formas verbais. Expressões como “pra” (em vez de “para”) ou “tá” (em vez de “está”) foram vistas como deformações. No entanto, a linguística moderna reconhece que essas formas pertencem ao registro coloquial, e não representam falta de domínio da língua, mas adequação ao contexto da fala.
Até palavras como “tchau” (de origem italiana) e “ônibus” (abreviação de “auto-ônibus”) foram estranhadas em suas primeiras décadas. Hoje, fazem parte do vocabulário comum. Esses exemplos mostram que a língua não “perde” valor ao mudar — ela apenas responde ao uso real das pessoas.
3. Por que a língua muda? A visão da linguística
Na linguística, as mudanças na língua não são vistas como “erros” ou “ameaças”, mas como parte do funcionamento natural dos idiomas. Toda língua viva está em constante transformação — e isso acontece por vários motivos: economia de esforço, influência de outras línguas, mudanças culturais, novas tecnologias, ou simplesmente porque os falantes buscam formas mais práticas e expressivas de se comunicar.
Segundo o linguista brasileiro Marcos Bagno, em sua obra Preconceito Linguístico, as línguas não mudam porque os falantes “falam errado”, mas porque a linguagem é uma ferramenta viva, moldada pelo uso social. Ele ressalta que o português que falamos hoje seria considerado “incorreto” por falantes de séculos passados — e o mesmo acontecerá no futuro com o nosso modo de falar atual.
Outro exemplo vem de José Luiz Fiorin, que aponta que uma das forças centrais da mudança linguística é o uso. Quando uma determinada forma passa a ser usada por uma grande parte da população de forma recorrente, ela tende a se consolidar, independentemente da norma anterior.
Até mesmo a forma como pronunciamos palavras muda com o tempo. O que chamamos de “redução”, como dizer “tá” em vez de “está”, ou “pra” em vez de “para”, é uma estratégia comum em quase todas as línguas do mundo. A linguagem oral busca agilidade — e a língua acompanha isso.
A linguística descreve esses fenômenos, em vez de julgá-los. Em outras palavras, os estudiosos da língua observam o que acontece de fato com o idioma em uso, e não apenas o que está nas regras de gramática tradicional.
4. O papel da norma culta e o uso real
A norma culta não é um erro — é uma convenção. Ela serve para garantir clareza, uniformidade e formalidade em determinados contextos, como concursos, produção acadêmica, documentos jurídicos e comunicação institucional. Em outras palavras, a norma culta é uma ferramenta útil, especialmente quando é importante minimizar ambiguidades e garantir compreensão ampla.
Mas a existência da norma culta não invalida outras formas legítimas de uso da língua. O português falado no cotidiano, com suas gírias, simplificações e estruturas próprias, também é uma manifestação válida do idioma. Ele atende a outros propósitos: expressividade, identidade, intimidade, agilidade.
Dizer “nós vamos” e “a gente vai” são duas formas gramaticalmente diferentes de expressar a mesma coisa. A primeira obedece à norma tradicional; a segunda segue o uso mais espontâneo do português brasileiro. Ambas são funcionais e perfeitamente compreensíveis. O erro, neste caso, não está na construção, mas no desconhecimento do contexto adequado para usá-la.
O linguista Evanildo Bechara, uma das maiores autoridades em gramática do português, reconhece que a norma culta é apenas um dos registros possíveis da língua, e que o domínio do idioma envolve compreender e saber circular entre registros diferentes. Saber quando usar “você” ou “o senhor”, por exemplo, é mais importante do que saber qual está “mais certo”.
Valorizar a norma culta não significa desprezar a linguagem popular — e tampouco o contrário. O que empobrece a língua não é a mudança, mas a intolerância com a variedade.
5. Internet, oralidade e registros variados
A popularização da internet e das redes sociais trouxe novas formas de comunicação que causam desconforto em quem está acostumado com padrões mais tradicionais da língua escrita. Abreviações como “vc”, “pq”, “tbm”, além de expressões como “dar ruim”, “cringe” ou “cancelar”, geram reações negativas em algumas pessoas. Mas isso não é novidade: a linguagem sempre se adapta aos meios disponíveis.
Quando o rádio se popularizou, muitas pessoas estranharam o tom mais coloquial dos locutores. Quando o telefone virou ferramenta do dia a dia, expressões como “alô” entraram no vocabulário. Agora, com o celular e os aplicativos de mensagem, surgem novas abreviações, emojis, e formas de escrever que imitam a fala.
Essas formas fazem parte do que a linguística chama de registro informal ou coloquial. São adequadas ao contexto da comunicação rápida e pessoal. Elas não substituem a norma culta — apenas coexistem com ela em ambientes diferentes. Um texto jurídico continua sendo redigido com formalidade. Uma mensagem no WhatsApp não precisa seguir o mesmo padrão.
O importante é entender que cada situação pede um registro diferente. O problema não está em escrever “vc” para um amigo, mas em escrever “vc” num relatório profissional. Ter domínio da língua não é apenas seguir regras: é saber quando e como usá-las.
Essa capacidade de adaptar a linguagem ao contexto — chamada de competência comunicativa — é o que realmente define se alguém se comunica bem. E ela inclui, sim, o uso criativo, espontâneo e até irreverente da língua nas redes sociais.
Conclusão
A língua portuguesa não está morrendo — está apenas fazendo aquilo que todas as línguas vivas fazem: mudando. Essas transformações não são falhas, nem ameaças. São respostas naturais ao modo como as pessoas vivem, falam, escrevem e se relacionam.
A história mostra que o incômodo com as mudanças é recorrente. O que hoje soa “errado” pode, no futuro, ser plenamente aceito. E o que hoje defendemos como “correto” já foi, em outro tempo, considerado inadequado. A linguagem é construída no uso, e não apenas nas regras.
A norma culta tem seu valor, especialmente em contextos formais. Mas ela não deve ser confundida com a única forma legítima de falar português. A variação linguística não empobrece o idioma — ela enriquece. Reflete diversidade, criatividade, adaptação.
Entender isso não significa abandonar a boa escrita ou ignorar a importância da clareza. Significa apenas reconhecer que a língua é uma ferramenta viva, e que a vida, por definição, não é estática. O português continua vivo porque continua sendo usado — por milhões de pessoas, de formas diferentes, todos os dias.
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